Depois da Ressaca
Estavam lado a lado na profundidade do reflexo, e, nele, Helena, que era mais alta, parecia menor do que Luana, como se fosse uma criança esperando a mãe se arrumar.
DEPOIS DA RESSACA
Foi quando te encontrei | Ouvindo o som do mar rolar
Charlie Brown Jr.
Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas.
Clarice Lispector
O sol da alvorada refletia o capô do Chevette 80, meio amassado e brilhante, como uma mancha de fotografia antiga. Helena dirigia embalada pela playlist de hardcore brasileiro e pela fumaça doce do beck de Luana. Desciam a serra do mar pela sinuosa Mogi-Bertioga, as curvas fechadas rente à costa, a água que deslizava pelos paredões, enquanto Helena tamborilava o volante no ritmo da música. Luana segurava o beck entre o dedo mindinho e o anelar e jogava ao vento as cinzas do cigarro, que se despedaçavam em pontinhos pretos pela neblina do vale.
As árvores assim, disse Luana. Assim o quê?, perguntou Helena. Assim, desordenadas, insistiu Luana, não parecem o mar em tempestade? Parece, é?, respondeu a outra e disse: e o cuzão do Márcio. Já disse quando vai descer? Luana não respondeu. Ué, pensei que depois daquele B.O. você ainda tava no ódio. Ele vai descer a serra só mais tarde, Luana disse depois de dar mais um trago. Soprava fumaça, que o vento sugava para fora. Depois do almoço, eu acho. Mandou mensagem, o chefe mandou ele terminar um trampo de última hora. Bem, sem ele, Helena sorriu, a gente pode aproveitar pra deixar tudo arrumado então. Eu sei como você é organizadinha.
Largada no encosto do banco, Luana virou o rosto para Helena e permaneceu quieta olhando para ela por alguns segundos. Disse: Sabe, sim. Helena cantarolava a música. O espelho do quebra sol refletia seus olhos, que percorriam a rodovia. O que foi?, Helena perguntou quando percebeu que a outra continuava na mesma posição. Luana riu com o canto da boca. Puxou o beck e depois suspirou a fumaça no rosto de Helena. Fala logo. Olha que eu jogo esse carro na serra. O que foi? Nada, disse Luana. É que aquela casa traz… Luana jogou o resto da bituca no asfalto, que rolou para a ribanceira. Um dia pra gente?, perguntou Luana. Se o chefe do seu boy deixar, quem sabe.
A casa cheirava mofo e, por essa razão, Helena foi direto abrir as janelas da casa enquanto Luana verificava os quartos. O sol do final da manhã subia e, por entre as telas mosquiteiras, furos de luz faziam as nuvens de poeira refratar por todo o corredor. A sala estava abarrotada de tranqueiras. Bolas de praia, cadeiras reclináveis desbotadas, a televisão de tubo, uma prancha de surf. Luana conseguiu abrir o quarto menor, mas, quanto ao outro, aquele que pertencia aos seus pais, ela não conseguia encontrar a chave. Acho que os velhos esqueceram em São Paulo, disse, e saiu para descarregar o restante das coisas do carro.
Helena assentiu e foi abrir as cortinas da cozinha. Dali ela enxergava o corredor que ligava o banheiro aos quartos. Percorreu com o olhar canecas com fotos de cachorro no escorredor da pia. Panelas empilhadas no armário. Os eletrodomésticos antigos e oxidados. Passou a mão pelo filtro de barro marrom e seus dedos seguiram as rachaduras irregulares que cruzavam as paredes desbotadas pelas marcas de infiltração. Havia um espelho de corpo no quarto aberto por Luana: espiou seu reflexo. Percebeu que atrás de si tinha uma foto na geladeira, uma garotinha loira abraçada em um cachorro. Fez menção de pegá-la, mas, quando resvalou os dedos nela, percebeu que Luana gemia com uma caixa pesada na área de serviço. Correu para ajudá-la e as duas carregaram-na até o centro da cozinha.
O Márcio consegue passar nos meus pais e pegar as chaves do outro quarto. Se não conseguir, de boa, Helena disse, não me incomodo em dormir na sala. Necas. Conheço essa casa há milênios, acrescentou ela. Luana assentiu, pegou os produtos de higiene pessoal da caixa e foi em direção ao banheiro. Primeira a anfitriã, disse rindo. Tá calor, né?, rebateu Helena. Minha recompensa, Heleninha. Por descarregar o carro enquanto você vagabundeava na nostalgia, disse fechando a porta.
Helena terminava de arrumar os alimentos nas prateleiras da cozinha quando Luana saiu do banho. Uma fumaça branca rarefeita esgueirava-se para fora do banheiro. Por um instante era possível vê-la: estava enrolada numa toalha branca. Seus cabelos loiros escorriam pelas costas e as gotas reluzentes deslizavam pelos pés. As pegadas molhadas, como uma ponte em dia de chuva, criavam uma trilha que levava ao quarto. Parecia deixar a porta entreaberta, parecia manter a luz apagada. Helena acendeu um cigarro, observando a foto da menina na porta da geladeira. Pegou a foto e olhou bem de perto e chamou por Luana, que não respondeu. Ela se inclinou para o corredor e olhou pela fresta da entrada. A luz solar cortava ao meio o piso, seus resquícios atingiam levemente o breu do quarto. Esmaecida, Luana secava o corpo. Passava a toalha pelos braços. Escorria com ela pelas coxas. Nos seios, no pescoço. Ia e voltava, de cima a baixo. Através do reflexo do espelho de corpo, Helena a observava. Permaneceu inflexível, parada no mesmo lugar, observando os contornos do corpo nu de Luana se sobreporem à sua imagem presente na cozinha iluminada. As gotas eram engolidas pela toalha aos poucos, devagarinho até o momento que o olhar das duas se encontrou. Estavam lado a lado na profundidade do reflexo, e, nele, Helena, que era mais alta, parecia menor do que Luana, como se fosse uma criança esperando a mãe se arrumar.
As gaivotas piavam no fio do horizonte e um grupo ruidoso de crianças arremessavam conchas na orla da praia. Ondas batiam nas encostas rochosas e retornavam se curvando para trás, vomitando espuma branca. O ruído do verão, disse Helena. Não é bom? Ela ia à frente com uma prancha debaixo dos braços, sob o sol. Estava de cabelo preso, roupa de surfista e ecobag. Luana vinha alguns metros atrás, levando um cooler e protegida pelo guarda-sol. Iam sem pressa, empurrando montes de areia. Decidiram armar o guarda-sol próximo a um quiosque abandonado. Helena tirou o raspador da ecobag. Começou a limpar a parafina grudada na prancha com movimentos retos. A parafina velha, de pouquinho em pouquinho, saía como pequenas ondinhas de barro e revelava o vermelho, a cor verdadeira da prancha. Luana preparava a maconha com a tesourinha debaixo do guarda-sol. Puxou a seda da bolsa, derrubou a erva aos poucos e enrolou bem fino. Entregou a garrafa de vodka para Helena. Ela deu uma golada e alongou-se com o sol na nuca. Quando terminou de passar uma nova camada de parafina, prendeu o leash da prancha no tornozelo. Bora?, perguntou Helena, se inclinando para o mar. E Luana respondeu: nah, meu rolê é outro, segurando um livro. Helena assentiu e seguiu para o mar. Corria e correu: seus pés explodiam a poeira, marcando a areia. As ondas cessavam na baía quando ela entrou no quebra-mar.
Nuvens carregadas tingiram a paisagem da serra, mas o sol da tarde, do outro lado, ainda batia forte. Helena flutuava. Pegara algumas ondas quebradas, mas ficou a maior parte do tempo deitada em cima da prancha, com os cabelos mergulhados na água salgada. O cheiro de iodo preenchia o ar; seus olhos marejavam. No horizonte, percorria um sorveteiro que atendia um casal de idosos. Outro ambulante carregava uma carroça de cangas e chapéus, que seguiam num longo varal colorido pela praia. Luana sentada ali, daquela distância, parecia miúda e imóvel. Helena mergulhou quando percebeu uma onda atrás de si. A espuma se dissipou entre a prancha e o seu corpo para depois, mais uma vez, voltar a borbulhar sobre ela. Mergulhou sobre mais uma, mas deixou ser carregada pela próxima até a areia.
Parece que tá caindo o mundo em São Paulo, Luana disse, quando Helena jogou a prancha na areia. Falou com o Marcinho? Luana fechou o livro. Olhou a outra com cara de desdém. Era Felicidade Clandestina, da Clarice Lispector. Que horas?, tirou o leash da prancha, largou-a no sol e, depois de pegar a vodka do cooler, sentou sobre ela. Ele não vem, Helena. Ah. Tá impossível sair de casa. Ele disse. Alagou de novo por lá e, com certeza, também vai desabar pra cá mais tarde.
A sombra irregular do guarda-sol das duas, esticada na areia, dava a impressão de balançar com o vento. Esse marmanjo sempre dá desculpa, Luana. Luana virou o rosto pro outro lado, em direção ao quiosque abandonado. Cê sabe do que eu tô falando, continuou Helena, e deu uma golada na vodka. E aqui vai é cair uma chuvinha de verão, relaxa. É o ecossistema praiano: chove para não chover. É, vai chover, disse Luana, e a outra respondeu: Certeza. Um casal com dois filhos pequenos passeava pela orla. A mãe segurava o menor no colo e o pai andava de mãos dadas com o maiorzinho. Naquele ponto da praia, em contraste com a luz fosca que vestia a areia, suas peles pareciam irradiar. Caminhavam sincronizados e riram também sincronizados quando o maiorzinho gritou após uma onda atravessar seus pés. Luana fumava com os olhos avermelhados e Helena apontou para o cooler. Dias das minas, não?, disse Helena.
As duas estavam grogues quando o céu enegreceu. Relâmpagos partiam o alto mar e a chuva caía em trombadas, varrendo a areia à solta. A prancha de Helena voou para longe e o vento forte desarmou o guarda-sol. Pegaram tudo que conseguiram e, em passos dessincronizados, correram para debaixo do quiosque abandonado. Tremiam, arrepiadas, coçando a areia molhada colada nas panturrilhas. Porra. Meu livro foi pra puta que pariu. Isso que dá ler na praia, Helena gargalhou. Talvez. Mas o livro não merecia aquilo. Se fosse aquelas porcarias de autoajuda que você lê... Nerd, disse Helena, e a outra respondeu: Coach. E riu enquanto espiava a tempestade. A água descia pelos cabelos. Os sons dos trovões pareciam acumulados no horizonte e vinham em consonância aos zunidos do vendaval. Helena começou a cantar.
Hey, Luana disse, mas Helena não deu atenção. Hey, Luana repetiu, mas Helena continuava cantarolando. Obrigada, Luana disse. E Helena cantava e ficou assim, mexendo a cabeça de um lado para o outro, parando somente depois do refrão. Você não muda, né? Mesma moleca que conheci num veraneio. Ah, cantar espanta os males. E sai pra lá: quem me apresentou esses rock praiano foi você. Tava boa com meu Bob Marley quando uma patyzinha apareceu chorando porque o cachorro dela tinha fugido. Helena analisou o rótulo da garrafa de vodka, virou as últimas gotas e, depois de jogar a garrafa no convés do quiosque, disse: Luana. Oi. Você acha que o mar é sempre igual? Não sei. Acho que sim. O mar é sempre o mar. O mar não pode ser outro então? Depende. Mas se o mar é sempre o mar, como poderia virar outra coisa? Porque depende de quem entra nele, Helena, que respondeu: então não é ele que muda. É o outro. Existe onda que é igual a outra onda?, disse Luana. Igual, não, mas a sensação é a mesma. De uma onda boa. Então, disse Luana, enquanto tentava acender o beck molhado. Então, Helena repetiu. Ninguém é o que você acha que é, Luana disse. É. O vento enraiveceu-se e alastrou a chuva em direção a elas. Estar dentro do quiosque, ali, poderia ser a mesma coisa que estar fora. Luana abraçou Helena.
Não demorou muito para a chuva de verão cessar. As ondas estavam mais calmas, e, feito crianças num balanço, que somente se mexem após um empurrão do adulto, invadiam a orla aos poucos, para depois retornar quietas até que outras ondas subsequentes refizessem o processo. Os flocos de areia desintegravam-se na espuma do mar e brilhavam com o resto do crepúsculo no barro reluzente. As duas ainda estavam abraçadas, tão próximas, a pele na pele, que uma poderia estar dentro da outra. A praia parecia se limpar.
