Deus joga uma moeda
E daí o bandeirinha levantou o braço, achou um impedimento não sei onde; meio pé na frente, meio pé atrás, ninguém sabe. Impedimento, para mim, sempre foi uma metáfora.
DEUS JOGA UMA MOEDA
Crescia, crescia o meu jogo no tamanho novo do meu nome.
João Antonio
Assoprador de apito, na minha época, passava a mão em jogador sem dó. Socava a mão mesmo, dentro da nossa bermuda, sentia a costura, alisava nossas bolas até. Tá certo, tudo isso é verdade, mas só acontecia com os moles, molengas. Sabe o papel higiênico de punheta? É, pra puta que pariu de gente assim. Tava dois a zero, dois a zero, e o Peruíbe ainda me perde aquela chance na cara do gol. Peruíbe, eu gritei, é com o peito do pé. De peito, de peito na boca dela, e ele me pega a redonda e manda na cachola do Tião Belito. O velho zonzou na arquibancada, veio até o SAMU. E o Dodô? O único cruzamento que conseguiram acertar, ele desce a canelada. Até dói os dentes de pensar. A gente faz o armário do vestiário de saco de porrada numa dessas e a garotada escutou esse dia: respingando forte, na briga, ofegante, aquele cheiro de amônia subindo. Uma canelada, eu gritei no intervalo. Sou o técnico, pelo amor. Como se chuta uma bola? Como se trata uma bola? Com carinho se trata a bola, penso eu, do jeitinho que se faz amor: gostoso, com respeito, não fazendo briga de foice cega. Futebol é parecido com isso, na tangente.
Norbertinho, já chutou tampinha na rua? Encaçapou latinha de guaraná no bueiro? Tá concordando, não tá? Tô vendo seus olhinhos voarem pelos tempos de chuta-chuta na rua, da sensação de pegar uma tampinha de Coca-Cola, lançar pro alto e meter-lhe uma na fuça. Uma final de campeonato não é merda qualquer, tá certo. Muito moleque daria tudo praquele momento: é o jogo da vida. Define quem vai sair profissional de quem vai ser peão. E tática depois de lambança, pra mim, é sentimento. Era isso mesmo, vontade e amor, a gente não precisava de muito. Tá dando risadinha do quê, Norbertinho? Não acredita? Ele não acredita, Teteu. O folgadinho perna-de-pau não acredita no que a gente aprontava no campão. Pede mais uma aqui. Isso, bem geladinha. Faz tempo, sim, quando eu era o centroavante que mais marcava gol na várzea mogiana. Encaçapava feito um bicho celestial. E fiz até gol em final de copa, naquela que muda a vida. Se você quer saber, fazia gol apontando pra torcedor ainda, molhando os beiços.
Vou contar: naquela época, tá certo, era mais difícil porque não tinha barganha. Era o certo pelo certo: Tortinha punha a gente pra correr desde as cinco da manhã. Correr, correr e mais correr de novo; até o goleiro precisava. E eu corria por uma hora e meia, desde às cinco da manhã até às seis e meia, sem abocanhar nheca nenhuma. E não porque não podia comer, não, até tinha uns pãezinhos dormidos em casa, uma margarina, mas se eu comesse eu ia acabar vomitando a gororoba toda. Vomitar é normal nos treinos, só que eu evitava passar por essas, já tava ficando mais velho; não podia dar mole, ainda mais depois das peneiras. Tinham uns moleques que vomitavam na primeira hora de treino, os molengas, principalmente. De tanto correr, vomitavam pão, leite, até a toalha de mesa a molecada vomitava. O gramado, se desse, virava uma torta nojenta. E era pra correr, correr, correr assim, mesmo. Correr como se tivesse fugindo de algum leão. Algum bicho. Isso, com a mão assim ó. E se não corresse, o caquético do Tortinha fincava atrás com a vara de marmelo. É pra correr, o caquético gritava. É pra correr, vagabundos, aquele morti-vivo gritava. Ninguém queria correr, sim. A bola: estar com ela, ser com ela, era o mais importante.
Futebol moderno, Norbertinho, nunca existiu de verdade. É o que eu acho. Onde já se viu centroavante pressionar tanto? Voltar pra marcar então? Até: só fazem isso porque não se garantem na pequena área. Sim, eu me fodi nas paneiras. Sim, eu era o melhor daquela safra. Deus e o mundo sabiam disso. E eu castigava o gol, não é, Teteu. Eu não metia bola de todo o lado? Pique o baixinho, o R9, o Edmundo animal-al. E o faro de matador: se me mandassem uma redonda, eu tirava os zagueiros e encobria o goleiro. Ninguém tirava fé do meu talento de chatear bocó. Por isso dizia pra dona Daiane que eu ia parar no Corinthians. Pra orgulhar ela. E daí que sou palmeirense, Norbertinho, o negócio é orgulhar a mãe e foda-se o resto. Chutar uma bola é trabalho: jogador que é jogador só torce pra bufunfa no bolso, tá certo. Ah tá, que se fodam esses caras da mídia. Se eu jogasse contra o Palmeiras, a bola na rede ia também. Matava a coruja sem dó, muito menos piedade. E naquela última temporada, sim, eu tava com o pé flutuando de tanto gol milagroso; milagreiro, como Tortinha dizia. De voleio, de falta, nos acréscimos. Voava em campo, era só vir, pedir, e viam; parecia um anjo.
Sim, tinha me fodido nas peneiras, me foderam, isso que é foda. Mostrar meu faro, não deu por muito; meu amor por furar uma rede e, por mais de vezes, o goleiro junto. De tudo tentei, pra me arranjar em clube profissional. O trem lotado com a dona Daiane. Meio pão com mortadela no bucho, vagando e bailando por São Paulo. Bailando, eu sei. Veio dela. Dizia e sonhava que queria ser bailarina. Vestir um frufru, passar maquiagem, se apresentar rodopiando pelo Brasil. E é engraçado, olhando pelo ângulo da televisão, o futebol parece uma dança mesmo. Coreografia, enfim, e os caralho. Colei nos grandes primeiros, e fui, sim, no Corinthians, no São Paulo. Até na Lusa eu fui. Em outras falidas a gente ciscou também. No verdão? Não, não tinha as bolas pra chegar no Parque Antártica. Não importa: falhei em toda peneira que tentei. Todo lugar era uma recusa, não em cima de não, empilhando na minha mente. A raiva só vinha crescendo e eu querendo mostrar pra dona Daiane que saía tudo bem. A gente nunca quer ver a mãe pra baixo. E, por isso, toda chance nova eu tentava mais forte, melhor; ascendia. As recusas machucam, Norbertinho, mas a vida é assim: a vida é foda, e ela se reserva num par de surpresa pra nós. E veio mesmo um dia, quando eu tava largando mão, pra surpresa de geral, quando entrei no juniores de um clube de série B.
Ela até chorou. Quem é que chora por coisa boba assim? Eu que nunca tinha visto na vida real, vi ela na cozinha preparando a janta e secando o rosto com o pano de prato. Não minto, não, também chorei, mas era a verdade. Assim como foi a porradaria só me mudar, pique cena de despedida de novela das sete. E bota daí, dia sim, dia não, você pode colocar as semanas no C.T. com um bando de moleques de todo canto. E era um campo maneiro pros meus parâmetros, grama limpinha, equipamento bom. O melhor de tudo: já tinha marcado calendários de amistosos e mais copinha e paulistão. Eram as nuvens, Norbertinho, junto com minha chance de provar que milagre poderia acontecer no mato.
E eu tô aqui, né. É foda admitir, sim, mas infelizmente não durei muito tempo. Me sabotaram, aqueles merdas; ninguém viu minha canhotinha abençoada. Me tiravam pra nada: nos treinos a molecada chegava mais forte em mim, e nos jogos, o roliço do treinador me sobrava esquentando banco. Rapidinho fui sendo empurrado pra escanteio. Era caipira demais, grosso demais, que eu não sabia me portar em equipe, diziam. Marquinhos não sabe tratar uma bola. Marquinhos é muito explosivo com os companheiros. Fominha, diziam. Eu era o melhor, e poderia estrangular aqueles moleques que não passaria a vontade de mostrar. E, semana após semana, eu nem sequer fui relacionado pra jogo oficial. E, após três pauladas, veio a dito cuja: eliminação. É, na fase de grupo, perdendo pra um catado de Maringá. Eu queria explodir, virar do avesso com aquela molecada, apontar a faca. Mas fugi, juntei minha vida e fui embora mesmo. Foi foda, ainda penso nisso, explicar pra dona Daiane a desistência na época. Cheguei em casa enquanto ela sonhava no sofá, dormindo durante o jornal. Era o que ela queria, que eu aparecesse na televisão dando entrevista. Daí menti. Melhor inventar que fui expulso do que ter saído por conta própria; de ter fodido o sonho da mãe. É, mãe, bailar no campo, pois é, não nasci pra ser dançarino.
E eu era matador, tá certo, como o Teteu aqui pode provar, eu tinha me fodido nas peneiras, e, por isso, só me sobrava a várzea e o Tortinha. E o caquético jurava meu pé naquela época, mais do que dos outros moleques, tá certo? Mas penso agora, como técnico, que ele tinha razão no pensamento: mandar uma redonda na área pra mim era a sentença de morte da coruja. Se mandassem uma pique Zidane na entrada da área então, eu cravava. Era como voar, Norbertinho. Era belo pra um caralho. Depois que me fodi nas peneiras, só joguei com raiva. Uma raiva bem bonita pra quem via. Acho que eu jogava melhor assim, mandando no campo, fazendo o que eu quisesse. Se Deus me abençoou com gol atrás de gol, vitória atrás de vitória, louros atrás de louros. E, de quebra, começava a chamar atenção pelas beiradas. Capela invicto na temporada, eu artilheiro do terrão, e o Tortinha viu a chance de me apresentar pra empresário.
Maluco alto era o tal de Pólvora, playba daqueles que acha bonito usar ray-ban em dia nublado. O cara começou a colar nos treinos, mas não se apresentou de primeira, não. Me bisbilhotava de longe, parecendo uma sombra. E se alongava. Assobiava quando via lance bonito e assistia às partidas sempre com o celular no ouvido. E o tal do Pólvora, fiquei sabendo depois de um triplete, não era tal coisa nenhuma: era olheiro de peixe grande. O mesmo que tinha levado o Neymar pra Santos na infância, e que arranjou contrato pra uma porrada de moleque da cidade. E eu tava ali: na frente do futuro e nem percebia. Era a copa do terrão mogiano. E o gigante só se apresentou pra mim oficialmente depois da vitória nas quartas. Se você manter essa pegada assim, alada, te levo pra onde você quiser. Se você meter mais um desses, Pólvora sussurrou no meu ouvido, faço tubarões nadar no pasto por você. Aquilo me balançou, tá certo? Não bastava cravar, ele me disse, era pra levantar o time, mostrar responsa. E daí, quando percebi, tava correndo mais nos treinos. Corria, corria, corria feito um outro. Teteu aqui não me deixa mentir: o caquético não pisava mais tanto nos meus calos. Até me dizia: rapaz, esse é o caminho certo. Corre que nem um bicho, que nem um leão. Um leão com asas, ele disse. E daí, não passou muito, e veio a semis e o apelido correndo junto: Canhotinha alada. O vagabundo do Zé Cadela, soube mais tarde, foi quem espalhou pelo bairro.
Foi antes da final que eu disse pra dona Daiane que a gente ia vazar do buraco. É, deste buraco chamado Taiaçupeba. Pode arrumar as tralhas que vou te levar pra morar no Guarujá, mãe, eu falei pra dona Daiane. E falei do Pólvora, da BMW que iria me buscar e que a gente ia melhorar de vida. Sim, eu ia assinar com o Corinthians. Tava certo, sim, falei pra ela. Quem acredita que a verdade é sempre o correto não sabe porra nenhuma da vida. Tem problema ver o brilho no olho da mãe? Por acaso, tem? E a gente riu naquela noite, tá certo. Dona Daiane trabalhava muito, o dia todo, seis dias por semana na vendinha. Eu e ela, versus o mundo, roteiro de filme do Stallone.
Ah, eu tinha a chance de dar a vida melhor que a propaganda prometia pra gente. Dona Daiane caía no conto. Rezava pra mim, na sinceridade: amanhã será melhor, dizia. Deus tá guardando você, a dona Daiane me dizia. Sou fiel, tá certo, crismado e tudo mais, mas como posso saber se Deus olha diretamente pra mim? Com tanta desgraça no mundo? E se Ele vier pro campo, me perguntava e me pergunto, Ele vai jogar do meu lado e não do lado do meu adversário? Se todo jogador acredita na palavra, em quem Deus vai escolher? A pessoa que tem mais fé? Ele vai fazer aritmética de quem é mais fiel, soma um mais um igual a dois? O número de crentes de cada time? Numa final, é você por você. Mas se existisse um incentivo. Por isso, na noite anterior, rezei diferente: desafiando. Uma moeda pra cima. 50%, que moleque tem 50% de chance de dar certo na vida. Lançar a moeda e dela, meu destino. Cara, eu; coroa, Ele. Se eu ganhasse, mudaria de vida; consagração. Se Ele ganhasse, tudo já era dele mesmo, tanto mais do que fazia. Só teria a certeza: aceitar o que foi me reservado. E assim foi, sendo.
A molecada bufando, relinchando, a gente parecia bicho. Bicho mesmo. O olho no prêmio, o olho na frente. Aqueles cavalos de corrida com tampão. Não enxergam nada, sabia, só a frente. E eu igual, vendo a bola e as três traves. E, quando o professor apitou, só via a frente e mais nada. Se era a glória? Se era a benção? Tudo indo nos conformes, é, foi o começo da partida. Logo na primeira bola e pimba, lá dentro: é agora, pensei, quando fui pra arquibancada, é agora. E daí o bandeirinha levantou o braço, achou um impedimento não sei onde; meio pé na frente, meio pé atrás, ninguém sabe. Impedimento, para mim, sempre foi uma metáfora. Mas tudo bem, tava indo tudo bem, eu só precisava de umazinha. A imagem da moeda vinha na minha cara, lançada pra cima. Em qual lado caiu, Norbertinho? Se eu não falei do resultado, não é porque esqueci. Cada qual no seu tempo. E veio a imagem do cara-coroa-cara, a imagem da moeda rodopiando no ar e do nada: a dona Daiane chorando na minha mente. O gol logo logo ia chegar, tudo levava a crer; um a zero e depois logo viriam dois, três, quatro. A molecada do Pindorama sempre foi ruim de bola. Tava certo que só poderia ser a obra da minha canhota. Sim, a alada, Norbertinho. O campo, nuvem. Juro: fofo, branco, nunca tinha sentido nada assim. Corria sem me cansar, piscava sem fechar o olho. Eu só ia. É, naquele agora o isso era isso: mais nada do que isso: somente à minha frente. Somente.
Olhei pro céu quando senti a pressão. Acabou o primeiro tempo em zero a zero e o jogo veio pro segundo sem eu me dar conta. O pézão que já tinha raspado a minha canela antes. É do jogo, todo time tem o seu pitbull. O centro deles marcava, marcava muito, cercando, fungando nas minhas costas. Esgueirando pra fazer maldade. Mas eu tinha certeza do que me aguardava. Foi pro finalzinho do jogo que, depois de uma bola perdida na frente da área, armei a paulada. Era perfeito: a quicada na grama, a costura da bola, ela subiu linda-lindíssima em câmera lenta. Armei o pé e ele foi é pra cima, na ascendente. O tranco veio. Em cima de mim. Me pegou pra valer. É, Norbertinho, não é fácil perceber quando você chega perto do sol. Quando o brilho é tão perto, você nem percebe. Fica cego. O dia tava lindo, percebi. Me depenou. Me arrancou as asas. Cravou a chuteira por trás, pelo calcanhar. Rachou no meio, rasgando veia e tudo. Nem vi quando o Tortinha entrou no campo e colou o rosto no meu. 192. 1. 9. 2. Gritando versículo de Bíblia. Percebi uma mancha na minha frente, olhei pra lateral e vi o Pólvora fazendo uma ligação. Tortinha suava muito, os pingos rolavam por mim e eu ria, olhando pro céu. A imagem da moeda vinha e vinha, descendo rodopiando. Pingou no chão do vestiário quando joguei e sambou no concreto até descansar:
Cara.
No jogo, caiu cara; na vida. Minha chance na aposta contra o divino. Logo eu. Sem dor, nem o nada. O lance de moeda veio no inexplicavelmente. Tudo girava. A legião de socorristas assim e eu rindo, quando me subiram na maca. A mecânica do homem não permitiu, era só isso. Um dos caras passou a mão nos meus olhos. Pra quê, se o problema era nos meus pés? Eu piscava muito, mas não chorei, falaram para dona Daiane, que ficou comigo no hospital e até depois. Cravar um gol que não valeu, ser estraçalhado, desistir das chuteiras. É, tá certo; foi o certo que chegou. Minha mãe do meu lado esquerdo.
Veio o destino, só como ele, veio mesmo, talvez. Fiquei quase feliz. Tragicamente, sem a nuvem que me corroía. E a minha molecada de agora, Norbertinho? Se presta um é muito. Não sobra, não resta, quem quer que veja já viu: é preciso se apegar.
